sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Sobre Angústias e Perspectivas

Sobre Angústias e Perspectivas


 Marco Aurélio Monteiro Pereira

Eu creio, sinceramente, que estamos caindo em uma armadilha montada sobre uma falsa questão, qual seja, esquerda identitária ou não identitária? Esta questão é falsa, pois coloca a possibilidade de qualquer esquerda, qualquer uma que seja, não ser identitária, e confunde claramente (a armadilha é MUITO eficiente) identitarismo com identidade, numa enunciação antitética e conflitiva entre as posturas de diversas correntes da esquerda.

É impossível ser esquerda sem ser identitário, até porque, colocando de forma quase esquemática, o fundamento daquilo que chamamos esquerda é a identidade proletária (proprietária apenas de sua força de trabalho) naquilo que Marx chamava de luta de classes com a burguesia (detentora dos bens e meios de produção). Há aqui uma clara enunciação de embate social entre identidades distintas, que foi resumida pelo marxismo como conflito entre trabalho e capital (Creio que a morte prematura de Marx antes de concluir O Capital gerou uma interpretação estrutural de viés economicista ao marxismo, da qual foi impossível nos livrarmos até hoje). A grande questão é que a esquerda acabou refém da canonização determinista da identidade, hoje definida por uma construção parcial, determinista e sumária do conceito de classe social.

O problema é que o desenvolvimento capitalista prosseguiu e superou os limites postos, pela própria dimensão cronológica desses limites, pela ortodoxia marxista e suas determinações postas à ação social e política da esquerda até hoje. A superação do limite estrito da mais-valia como fonte da dominação, acumulação e domínio da burguesia sobre o proletariado acabou entrando em crise pelo seu próprio êxito, e a acumulação capitalista entra na transição da mais valia sobre o trabalho para a financeirização como forma privilegiada de acumulação capitalista, na prática concreta da burguesia, processo iniciado após Breton Woods e que vem se aprofundando de forma radical até hoje.

A questão é que este processo se apoia numa investida burguesa para além do mundo de trabalho, coisa normal, mas sempre subsidiária até então, para os campos plurais e tantas vezes difusos até para a resistência de esquerda, da superestrutura. É um processo intenso, veloz e marcado pela agressividade, que passa pelo chamado pós-moderno (que pode ser lido como pós mundo do trabalho formal de extração da mais-valia do processo produtivo), pela modernidade líquida de Baumann e chega a partir de meados da segunda década do século XXI, à proposta de financeirização absoluta fundada superestruturalmente na dissolução ultra veloz do proletariado como campo de identidade social definida por sua ação de resistência à dominação burguesa.

A financeirização da sociedade é o campo fértil para diluição, quiçá destruição, da identidade proletária como campo focal de resistência à exploração social do ultra capitalismo financeirizado, que de forma reducionista chamamos de neoliberalismo.... A velocidade desse processo, inédita na História, pulverizou as identidades sociais, fenômeno bem exposto por Marilena Chauí como a transformação do trabalhador proletário, de quem se extraía mais-valia de seu trabalho para gerar a acumulação burguesa, no "empreendedor de si mesmo", que se vê, hoje como fora e acima da classe trabalhadora, como um burguês em possibilidade, num processo que tem sua expressão maior no que é chamado de uberização, onde o trabalho posto do campo formal do trabalho assalariado, gera ilusão do trabalhador uberizado ser um "empreendedor", um empresário de si mesmo, o que desloca sua consciência de classe no aspecto econômico do campo proletário para o campo burguês.

Isso pode ser aferido pragmaticamente pelo esfacelamento, para ficar por aqui, do sindicalismo como forma de organização proletária no Brasil, que ocorre concomitante com a fragmentação e dissolução de um sistema legal de trabalho na chamada reforma trabalhista, que esgarçou os vínculos históricos da própria extração de mais valia e, na prática, dissolveu as dinâmicas estruturais de consciência de classe.

Mas é impossível a existência de sociedade onde os indivíduos vivam nus, despidos de qualquer consciência de si mesmos e sem identidades sociais. E aí, aproveitando o hiato teórico do marxismo tradicional sobre as dimensões e o papel da superestrutura na constituição da identidade de classe, ocorre um redirecionamento das identidades para espaços da superestrutura que tradicionalmente eram abordados de maneira secundária nas análises e na prática do pensamento de esquerda e na sua própria ação política e social.

Assim, aspectos extremamente relevantes da luta de classes, embora historicamente tratados como consequência da exploração burguesa e reforços para a extração da mais valia, como a organização das ditas minorias sociológicas (muitas vezes maiorias populacionais) em frentes de ressignificação das identidades centrais para o embate na luta de classes. O eixo de se desloca da identidade geral e abrangente de classe social, e se fragmenta em espaços plurais de identidades mais restritas, que, por sua vez, deslocam o campo de batalha da luta de classes para o da afirmação social das ditas minorias sociológicas tantas vezes descolados da complexidade da resistência à dominação burguesa, que passa construir estruturas de dominação onde é muito mais fácil controlar e até atender expressões restritas de identidade do que enfrentar uma frente unida classista na luta de classes tradicional.

E a luta de classes se deslocou de um campo determinado, a superação da extração de mais valia, para o espaço da inclusão social, urgente e necessária, das ditas minorias nos espaços sociais, na perspectiva de legar para um futuro indeterminado, quando estas minorias estivessem superassem sua opressão estrutural e superestrutural posta pelo novo capitalismo.

A questão é que esta fragmentação das lutas legítimas e necessárias das minorias, não conseguiu, até agora, construir um viés teórico, e muito menos político, de unidade nesses embates. E, e isso é música para os ouvidos da burguesia financeira, o foco centrado nas demandas identitárias específicas está fragmentado em grupos fechados, tantas vezes antagônicos entre si, que demandam suas lutas serem centrais e prioritárias e não tem conseguido uma articulação de frente de luta unificada contra a burguesia financeira.

Coisa simples e expressa no antigo dito "dividir para governar". E esta divisão do antigo proletariado definido por ser objeto da extração de mais-valia no campo do trabalho formal e condicionado socialmente ao campo das metáforas sociais sobre este mundo do trabalho, em inúmeros grupos que se definem a partir de si mesmos e não a partir de uma concepção geral da opressão burguesa, é acompanhada por uma polarização, dentro da esquerda, de grupos fechados que se definem por identidades descoladas do trabalho e do mundo do trabalho e postas no campo superestrutural da dominação burguesa, como etnia, sexo, gênero, identidade sexual, características corporais, dentre inúmeros outros. Como consequência disso, ocorre em nível global, um processo de enfraquecimento da antiga esquerda, focada ainda na luta de classes como eixo de identidade e prática, e ascensão cada vez mais veloz da direita, cujo fundamento individualista é um campo muito atrativo para a definição e práticas das táticas e estratégias de dominação do capitalismo financista, acaba por influenciar a fragmentação dos espaços de resistência à dominação, que é, por si própria, global. Daí a gente tem foco na luta de segmentos oprimidos contra uma frente poderosa de dominação que tenta destruir a consciência de classe e substituí-la por uma consciência individualista que prioriza o indivíduo e seu campo específico de luta de forma triste, tantas vezes excludentes entre si (Já antecipo a crítica lembrando o episódio recente no governo politicamente de centro do Brasil, onde dois titulares de ministérios voltados à identidade de gênero e igualdade racial, protagonizaram um triste episódio claramente definido não por pautas de natureza classista, mas estritamente identitária, causando um dano à esquerda como um todo e criando um palco para a direita que vai ser cenário de desqualificação, não das minorias sociais, mas da esquerda como um todo).

Enfim, eu escrevi essa coisa toda, me perdoem pela complexidade os poucos que chegarem até aqui, no sentido de propor a necessidade de construção de eixos da luta contra os burgueses financeirizados. Eixos que estejam fundados em princípios que não joguem a luta de classes como motor da história no lixo, nem a diluam em micro lutas tantas vezes até contraditórias entre si, mas que, embasados no campo conceitual e de prática social que define em si o campo da luta de classes, construamos a luta de classes como espaço, solidário e resiliente para o apoio inclusivo de todas, todos e todes numa frente que parta da consciência e necessidade de uma ação coletiva, mesmo que multifacetada , de resistência ao ataque mais sofisticado e eficiente já feito pela burguesia pelo monopólio da superestrutura e pela diluição, quiçá extinção, do processo de resistência na luta de classes, de todos os setores da sociedade que são objeto de alienação si próprios como forma de plenificar a extração de uma valia total de toda a sociedade em prol de uma minoria absoluta de especuladores financeiros......

Mas, insisto, e finalmente concluo, hoje, com a fragmentação das frentes de resistências, nós é que estamos fazendo o jogo do capital e nos diluindo em nós mesmos. E isso tem que ser debatido, discutido entre companheiros, tendo um campo que nos identifique a todos como classe, e que pense as lutas identitárias, prementes e necessárias, com a clareza de que a opressão real é de classe, e de que os lugares de fala devem ser definidos de forma classista, e que a luta de cada um é um microcosmo da luta de todos.

Que "Ninguém larga a mão de ninguém" seja superior a "Você não tem lugar de fala", pois estamos todos ligados pelo definidor comum de sermos todos explorados, oprimidos e alienados pela burguesia, e que cada luta é um, dos tantos que existem, campos da grande batalha da luta de classes. Nenhum grupo social específico vai conseguir se libertar de um processo de alienação que é global, e nenhuma postura de resistência que ignore as lutas identitárias terá a menor possibilidade de êxito, pois ninguém estará livre da opressão até que todos, todas e todes estejam livres da opressão.

Escrevi este texto como fruto de minha angústia ao observar empiricamente as dificuldades cada vez maior de um discurso político unificado e pelas dificuldades que a diluição do conceito de classe e sua substituição, na prática, por conceitos identitários de grupos menores dificultam nosso diálogo com aqueles que não são nós mesmos, cada um em seu grupo, cada um com seu lugar de fala e, paradoxalmente, todos igualmente oprimidos e principalmente, alienados de nós mesmos, pela ação mais eficaz da burguesia na história do capitalismo. (Se vc achou longo, me perdoe, mas não sei desenvolver uma tese sem enunciar, contextualizar, analisar e propor...)


terça-feira, 5 de abril de 2022

E A COBRA VOLTOU A FUMAR

Marco Aurélio Monteiro Pereira

Este episódio da nefasta lembrança feita pelo bananinha a uma (uma apenas, das várias) das sessões de tortura às quais  a jornalista Miriam Leitão foi submetida durante a ditadura militar, mostra algumas coisas que nosso esporte nacional de passar pano e varrer pra baixo do tapete, os mandos e desmandos que uma certa elite brasileira, civil e militar cometeu, comete e (deus nos livre!) tende a cometer como expressão de mando político neste Brasil varonil... 

Esta terra cuja bandeira nunca será vermelha, porque todo o sangue derramado, este sim vermelho, o foi em porões, em grotas, em ermos, em cantos de praia, lugares onde bandeira não frequenta, e não nos salões, nos pomposos prédios públicos, nas mansões dos bairros "nobres". Este sangue derramado na tortura, nos assassinatos, nos desaparecimentos de corpos, na repressão a estudantes, profissionais, mulheres, indígenas e negros, de gente, enfim, movida por um ideal de liberdade coletiva e punida no oculto, no clandestino, no privado das sombras.

Gente, com seus acertos e equívocos, que lutava pela liberdade democrática como valor fundamental e que sofreu cobras e lagartos e jacarés, e paus-de-arara e maquininhas de choque, e afogamentos e estupros e frio e fome e calor, na tentativa  de quebrar os corpos que eram impossíveis de se enfrentar na lógica e na razão política do debate...

Aqui não se trata  de Miriam Leitão nem de dudu bananinha, mas na repetição useira e vezeira, covardemente explícita ou covardemente simulada, da apologia da tortura, da destruição do corpo de quem não se consegue destruir as ideias...

Se Miriam Leitão teve uma guinada liberal depois da ditadura é irrelevante... a tortura esmaga indivíduos e não ideologias.... Quantos não comunistas ou socialistas ou democratas, fora da luta armada, também foram torturados. Quantos filhos sem pais, companheiros sem companheiras, amigos sem amigos isso gerou.... O discurso fácil da guerra à guerrilha cria um balaio onde entra gente que pegou em armas e gente que foi denunciada por razões de traição amorosa, antipatia pessoal, conveniências políticas e afins, jogando todo mundo no balaio disforme de "comunistas".

Eu tinha nove anos em 1964, morava em Astorga, na época uma cidadezinha do interior do Paraná, pouco mais que uma rua principal e algumas transversais... estudava na escola das freiras com minha irmã. Meu pai trabalhava na prefeitura e minha mãe era conhecida como a "Maria da Cachorrada", porque nossa casa era o abrigo certo para todo vira-latas de rua.... 

Meu pai trabalhava como consultor  na prefeitura e nunca teve envolvimento de militância política de esquerda (vejo hoje que era um nacional-desenvolvimentista de horizonte liberal) Mas, no dia 05 de abril de 1964, faz 53 anos hoje quando estou escrevendo, teve sua casa invadida e depredada, minha irmã de 6 anos e eu ameaçados e minha mãe humilhada... Daí foi levado, sem explicações, para não sabia onde....

Na década de sessenta, mesmo minha mãe sendo uma mulher com formação, professora de arte, o controle doméstico era feito pelo marido. Não havia cartão de crédito e era o pai quem assinava os cheques e controlava a conta no banco e pagava as contas do açougue, do armazém, do padeiro da farmácia, do comércio em geral... E o pai foi levado... um desfile macabro de humilhação pública na traseira de um jipe militar, pra cidade toda ver....

Em dois dias, a comida de casa acabou.... Dinheiro já não tinha, a conta do banco foi bloqueada... ninguém do comércio queria vender fiado pra família do comunista (já tínhamos virado a família do comunista no dia seguinte), os amigos do clube onde o pai era diretor, as alunas de arte de minha mãe, meus amigos e as amiguinhas de minha irmã sumiram por passe de mágica.

O primeiro trauma foi a expulsão da escola, alguns dias depois... ninguém queria estudar com os perigosos filhos do comunista de 9 e 6 anos, e a escola das freiras nos botou espetacularmente pra fora, num espetáculo de execração pública, assistido e incentivado pelas noivas de Cristo..

Hoje eu acho que só não houve linchamento porque uma das primeiras pedradas que nos atingiu acertou minha cabeça na fronte, e começou a sangrar muito... Eu estava abraçando minha irmã, completamente descontrolada, e acabamos por ser lavados por todo o sangue que escorria... conseguimos correr e fugir dali, do pátio da escola. Ao chegar em casa a mãe desmaiou quando viu aquele sangue todo cobrindo os filhos e a partir daí caiu numa letargia depressiva muito forte, mas nem tinha como chamar o médico... ele não quis vir nos atender... 

Minha irmã (6 anos) apavorada, minha mãe largada na cama, uma abraçando a outra e eu, do nada passei de um piá para o homem da casa. Tinha que providenciar comida e dar um jeito pra gente sobreviver...

A casa tinha um sala grande, com janelões do chão ao teto e os homens de bem, depois que o pai foi levado, toda noite matavam um dos cachorros da mãe, ela tinha uns 50, e jogavam dentro da sala pelos vidros quebrados... eu ia devagar, pegava o animalzinho, cada um tinha seu nome, e os levava para um matagal próximo, onde havia um buraco de erosão... puxava, às vezes, cães que eram maiores que eu, e com quem eu brincava todos os dias...

Depois de levar o cachorro e soltar longe no mato (isso continuou, 1 cão por dia, até conseguirmos fugir de lá), eu saía andando pelos sítios que havia no entorno da cidade, roubando umas couves aqui, espigas de milho, abóboras, tomate acolá, para que a gente tivesse comida. Duas ou três vezes consegui afanar uma galinha, que durava quase uma semana. Apanhei algumas vezes, quando me pegavam... E nem uma pessoa da cidade falava conosco.. nem uma...

Uma madrugada, eu estava indo pegar feijão num sítio próximo, e ouvi uma voz de mulher me chamar, baixinho.  Era Dona Kimiko, uma imigrante japonesa bem idosa, que não falava português... ela fez sinal para eu ir pra cerca dos fundos de sua casa e passou para mim um embrulho, e saiu correndo. Eram três pratos de comida.... e toda noite eu passei a apanhar a comida até poder ir embora daquele inferno. Nosso único apoio foi uma senhora imigrante idosa que não falava português e a quem eu nunca pude agradecer...

Na época só era possível fazer interurbanos no posto telefônico, mas a mãe não tinha um centavo e na segunda vez que ela foi ao posto a atendente fechou a porta antes dela entrar..... dias depois, ela estava andando na rua, tentando, inutilmente como sempre, conseguir um crédito para comida no armazém, quando levou um tranco de uma mulher, uma de suas melhores ex-amigas, que soltou um embrulho no chão e saiu correndo... era uma quantia em dinheiro... a mãe correu pro posto telefônico e conseguiu falar com meu avô, em Guaratuba, no escritório do ferryboat, e lhe contou tudo....

Dois dias depois, um teco-teco aterrissou na rua principal de Astorga e meu avô correu até em casa e nos levou embora, com a roupa do corpo. Quando o avião desceu em Londrina, o vô levou a gente comer, e eu comi tanto que acabei vomitando tudo, de tanta fome.... Fomos com o vô pra Guaratuba, e nada de notícias do pai.... todo mundo achava que ele tinha morrido.

O fato é que o pai ficou preso 48 dias num quartel em Sorocaba, submetido a torturas mentais e físicas (mangueira de água de alta pressão, surra com fios de luz dobrados), que o deixaram marcado para o resto de sua vida. Foi solto com a roupa do corpo e sem documentos próximo a Sabáudia, cidade próxima a Astorga. Quando voltou a Astorga para nos encontrar, já havia moradores novos em nossa casa, ele foi preso novamente e jogado fora da cidade.... levou quase quinze dias para conseguir chegar em Guaratuba, doente, machucado....

Nem ele nem a mãe nunca mais tocaram no assunto... Sobraram minhas memórias fragmentadas, difusas, de um menino de nove anos, até o dia em que já adulto, depois da defesa de meu Mestrado em História, ele me chamou, me levou a um bar e passou quase dez horas contando o que aconteceu. Disse que eu precisava saber porque não havia nada para eu me envergonhar, que ele havia feito muita coisa errada na vida mas que em Astorga não foi o caso. E me pediu para guardar pra mim o que ele havia dito. Minha mãe, até morrer, nunca falou no assunto. Mas eu adolesci e cresci exposto à inenarrável dor dos dois..... As costas do pai, cheia dos vergões que nunca sumiram dos golpes de fios de luz, se constituíam, de modo ambivalente, na exposição da dor e da esperança.

Agora, quando setores quantitativamente expressivos da sociedade e mesmo do povo mais pobre do Brasil clamam pela volta de um regime como o que moeu e destruiu a minha infância e a de minha irmã, a beleza, a criatividade e a simpatia de mãe e a vida profissional, relacional e familiar de meu pai, que se tornou um cínico, na pior acepção da palavra; e eu vejo o prazer mórbido dos bolsonaros e bananinhas de não deixar morrer, a angústia e sofrimento de quem passou pela barbárie e fico a me perguntar: Que gente somos nós? Como é possível que a normalização de processos de violência física, mental, emocional, sentimental tenha banalizado a violência simbólica, destituindo-a de seu caráter desumano por excelência.... Não há ninguém que mereça isso!!!

E nos chamamos de povo da simpatia, da miscigenação, do jeitinho, da cordialidade, da alegria, do samba e do futebol... Meu Deus!!! É preciso olhar a sujeira imensa que se acumula debaixo do tapete!

Como se dizia na década de 1980, no final da ditadura, quando a barbárie começou a vir à tona: "QUE TUDO SE CONTE, PARA QUE NÃO SE ESQUEÇA E PARA QUE NUNCA MAIS SE REPITA".

Minha solidariedade, em dor, pavor, horror e sangue, a Miriam Leitão!



terça-feira, 1 de março de 2022

MARCHA, SOLDADO, CABEÇA DE PAPEL......

E o mundo virou só em guerra... Uma guerra a mais ou menos 10.680 km daqui... Uma guerra que é fruto de um complexo processo geopolítico de hegemonia na Eurásia... Uma guerra que acaba sendo definida pela imprensa e pela maioria das pessoas em termos de disputa entre mocinho e bandido, onde quem cuspiu primeiro é o bad boy da encrenca... Uma guerra que virou fla-flu, mas que na verdade tem sido a cortina perfeita para ocultar o prosseguimento da nossa tragédia cotidiana....

Domingo houve mais de 30 ataques aéreos da Arábia Saudita contra o Iêmen, com apoio e silêncio dos EUA... nem um pio em lugar nenhum, sobre o maior genocídio deliberado da contemporaneidade....

Semana passada, em um dia apenas, a Covid matou mais de 1000 pessoas no Brasil... O triplo dos cinco dias de guerra na Ucrânia...

Pretos e pobres morrem de bala e faca por semana mais de 20 vezes o número de mortos na guerra até agora.... mas são pretos e pobres, não loiros de olhos azuis....

A fome é endêmica em mais da metade dos países africanos, e o dinheiro gasto em armas em um dia da guerra poderia alimentar estas pessoas por meses... mas são só pretos e pobres e selvagens... Vc acha que a ONU e a OTAN vão priorizar a fome de africanos ou as disputas por hegemonia política global e aumento de lucro das indústrias bélicas?

E aqui a guerra já tem um vencedor por aqui ... É Bolsonaro... Calma, segurem os cravos e o martelo só um pouquinho.... Mas é isso mesmo... Bolsonaro venceu... Conseguiu que a pobreza de seu raciocínio dicotômico e binário, sem qualquer complexidade ou mediação, travestindo pobremente "princípios" o autoritarismo que expressa, mesmo quando montado em belas palavras do senso comum bonzinho, se tornasse a única forma de enfrentamento e compreensão da realidade possível....

E assim se criou o lado absolutamente mal, cruel, violento, imperialista, opressor, que, mesmo anacronicamente, come criancinhas ucranianas loiras de olhos azuis no café da manhã, que se atreveu a invadir um país soberano e pacífico (!) sem nenhuma razão, apenas por crueldade, pela sanha de destruição e afronta aos valores morais superiores da civilização ocidental.... Que provavelmente acordou de ressaca do porre de vodca da noite anterior e pensou em matar ucranianos pra ver se melhora...

E tem o lado bom, do nobre e heroico humorista ucraniano, que carrega em si a inteligência, a bondade e os ideais democráticos civilizatórios e que quer apenas tirar seu país do atraso e integrá-lo à civilização ocidental. Um país de convictos democratas, que preza tanto a liberdade que permite a existência livre em seu território do maior número de milícias neofascistas e abertamente nazistas de toda a Europa... que institucionalizou, no seio de sua Guarda Nacional o Batalhão de Azov, oriundo de um grupo paramilitar declarada e abertamente nazista.... Um país pacífico e democrático onde as milícias neofascistas tem libertado da vida dezenas de milhares de moradores civis de origem e inclinação política pró Rússia nas regiões de Lugansk e Donetsk... Um líder bravo e intimorato que vê virtudes em armar velhos, mulheres e crianças com coquetéis Molotov e armamentos gentilmente cedidos pelos países da OTAN para a defesa da democracia de um regime que tem suas origens na revolução colorida de 2014.... que se propõe, cordial e pacífico, a indultar e libertar presos com experiência em combate para pegar em armas contra a besta-fera russa, na defesa democracia e dos princípios civilizatórios...

Mas aqui cabe uma perguntinha que não quer calar: Onde esses presos obtiveram experiência em combate num país pacífico e inocente como a Ucrânia? Será que foi nas valorosas e gloriosas milícias neofascistas que defendiam a democracia assassinando milhares de civis pró-russos,  perversos e cruéis, na região do Donbass? Ou será que que experiência em combate desses valorosos prisioneiros nas celas ucranianas veio do expressivo contingente de mercenários ucranianos à disposição, no mercado de guerra global, a vestir a farda e honrar a bandeira de quem melhor lhes pagar? Ou serão egressos da revolução colorida de 2014, que destituiu um governo legitimamente eleito e abriu caminho pra nazificação do país? E este valoroso presidente que, oculto para a preservação de si mesmo como símbolo da democracia e da liberdade, num performance que remete às suas origens de comediante, se preserva e sacrifica seu povo para sua autoproteção?

E tem o sujeito oculto nesse processo todo, ou melhor, os sujeitos ocultos: A OTAN e os EUA... aqueles que, umbilicalmente ligados, mantém a Europa ocupada e tentam preservar ereta a estátua de pés de barro da hegemonia global norte-americana no mundo do pós-Guerra Fria... Que observam, sobre a imensa montanha de cadáveres de civis da África, Oriente Médio Ásia e América Latina, seus esbirros calarem a possibilidade de um mundo multipolar.....

Todos, menos o cramunhão do Putin, santos imaculados, de mãos limpas pensamentos democráticos, civilizatórios e imbuídos da plenitude do amor e da piedade cristã.....

Esse discurso moralista, sentimentalóide e, no pior sentido da palavra, alienante, tem dominado os meios de comunicação e levado as vestais que residem nesse lupanar Brasil a se indignarem na defesa da soberania nacional e da autodeterminação dos povos...  da Europa. Estamos, juntos com o híbrido de Zelensky,  OTAN e EUA, vermelhos (epa! vermelhos não pode.. Nossa indignação jamais será vermelha), ou melhor corados, quase apopléticos da ira santa que clama pelo destruição da Rússia para garantir a paz na Ucrânia e quiçá, sabe-se lá do que o Putin é capaz, no mundo.....

Daí não existe mais covid, não existe (será que algum dia existiu? Se houve, o povo nem lembra) mais o extermínio sistemático e recorrente nesse Brasil varonil, de pretos, índios, mulheres LGBTQIA+, pobres, pequenos lavradores e todo o contingente de pessoas que perfaz cerca de 80% da população... Só existem as pobre criancinhas loirinhas, de olhos azuis acenando as bandeiras amarelas do loiro dos cabelos e azuis de seus olhos cheios de lágrimas.... Apenas a guerra santa do bem contra o mal, que vai libertar o mundo (loiro e de olhos azuis) dos males do demônio cruel e opressor....

O país resolveu, nessa visão, num passe de mágica, as contradições de mais de 500 anos de colonização e neocolonização, acabou com a covid, a gripe, a malária, a desnutrição, a pobreza a violência social, as milícias (acho que milicianos de lá e de cá acabam por se reconhecer), um governo protofascista (Epa... esses também se reconhecem) e uma economia caindo aos pedaços (Epa! Epa! Esses também se reconhecem!)... Só existe, hoje a luta entre entre os santos guerreiros de lá, loiros e de olhos azuis, e o dragão da maldade (também loiro e de olhos azuis), a peleja santa contra o mal encarnado em quem se atreve a desafiar e hegemonia norte-americana via OTAN e os valorosos e angélicos loiros e de olhos azuis ucranianos.... 

Seria desnecessário mas, em tempos de dualismos maniqueístas, é preciso afirmar que sou radicalmente contra a guerra, que acho Putin a mais lídima expressão do autoritarismo e do imperialismo eslavo, um canalha, na mais perfeita acepção do termo, e que considero Zelensky apenas um rufião travestido de bobo da corte da OTAN.... que não considero ninguém santo ou demônio, porque a lida geopolítica é, por definição complexa e amoral, e sua moralização é apenas recurso de propaganda para conquistar corações e mentes no sistema maniqueísta e dualista de "eles" e "nós", mesmo que a gente não saiba direito que são eles e quem somos nós... Isso gera democratas e socialistas defendendo nazistas e protofascistas travestidos de democratas,  socialistas e comunistas defendendo um regime autoritário e imperialista, e a direita se sentindo à vontade para escolher seus autoritários de estimação numa lista bem eclética.... Bolsonaro escolhe Putin, Mourão escolhe a OTAN, e um monte de gente canoniza Zelensky....

Mas o fato, o fato concreto é que é imprescindível, necessário, e inadiável parar o mundo para defender os loirinhos de olhos azuis que lutam contra os loirinhos de olhos azuis para manter a hegemonia dos brancos europeus no globo.... Já os árabes do Iêmen (árabe é tudo traiçoeiro...), da Palestina (palestino nem é gente e é do demônio, luta contra o povo de Deus), os negros da Somália (preto deve ser medido arroba e contado em peças, como disse o Presidente da República) e uma quase infinidade de afins, aliados às mulheres, negros locais, indígenas, LGBTQIA+, sem-terras e sem teto, pequenos lavradores, povos originários, quilombolas ou, para não estender demais lista, pobres em geral... Mas isso é apenas quase gente.. Ou você está querendo comparar um negro, um gay, uma mulher, um índio, um preto, um pobre, um árabe, com aqueles anjinhos loiros e de olhos azuis da Ucrânia...?

Agora pode pegar os cravos e o martelo e me crucificar nas cruz do moralismo seletivo....

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Voltei!!! Aqui é o meu lugar!!!

 Voltei.... Como diria o bardo da Jovem Guarda, "eu voltei... agora pra ficar! Porque aqui, aqui é o meu lugar". Por razões diversas, abdiquei de escrever e, por pouco, de me expressar. Mas voltei... e minha gata me sorriu miando....

Pandemia, Economia, Política, Desgoverno, Inflação e afins, que definem o Brasil de hoje, suportados alegremente por um nível de imbecilidade coletiva jamais visto na história destas plagas tupiniquins, me assaltaram num surto agudo e longo de misantropia, no sentido correlato de dificuldade de socialização. Tudo agravado pela morte de todas as minhas três cachorras e dois acidentes de carro.... Esse melting pot redundou numa crise de pânico que, depois de alguns meses, começa a dar sinais de arrefecer.

Daí, até um pouco como terapia, como exercício de auto reconhecimento e, mesmo digitalmente, de busca de um nível mínimo de socialização, quero ver se volto a cometer algumas reflexões aqui, com certa periodicidade.

Vou fazer isso sabendo que blogs já são obsoletos, que ninguém mais lê acima de três parágrafos na internet, que minha linguagem é castiça, minha ironia é ácida e minhas posturas ditas radicais (!). Sabendo também que o nível acesso e de interação tendem, sendo muito otimista, a serem mínimos. Mas rede é o espelho da vida, e mínima também é a minha interação pessoal.

Mas voltei! Isso tá meio que uma egotrip, mas precisava ser feito. A fé continua cega e a faca, amolada, vivendo, cortando a vida, e olhando pra frente.... Porque "navegar é preciso, viver não é preciso"...

Espero contar com a atenção, o carinho e as críticas dos que, quiçá, lerão os posts futuros. 

Até lá!!!

quarta-feira, 6 de março de 2019

Quem me ensinou a nadar? Foi, foi, marinheiro, foi os peixinhos do mar...

Eu sempre achei a cultura popular, em suas formas de expressão alegres, bem-humoradas, politicamente incorretas, com suas peças aparentemente toscas, a cultura superior de uma sociedade... Com os cortes a vivo e a fundo, rasgando a madeira e nela aflorando a alma... com músicas coletivas, participativas, resistentes, de percussão dura e marcada, de vozes altas, falsetes, quase gemidos, de rabecas e pandeiros de dor, amor e alegria, não necessariamente nessa ordem... Da simbiose com a terra, com o barro, de onde saem panelas, potes, pratos, moringas, taperas, um tudo necessário para usar, morar e viver. Mas gosto principalmente de sua rebeldia, da ironia fina e ferina, dilacerante, na verdade, que corta fundo nos que querem enquadrá-la em cânones de forma, de métrica, de textura, de arquitetura, de qualquer coisa que não a torne ela mesma e a submeta aos desejos de normatização....
O carnaval é assim, irredutivelmente resistente, finamente irônico, mesmo quando explícito, o "ridendo castigat mores" dos romanos elevado à sua expressão perfeita. É o momento de se expressar fora das conveniências e das vivências organizadas pelas leis, usos e costumes, que em sua maioria são feitos apenas para reduzir o mundo à tristeza dos tristes. Eu gosto muito do carnaval, e gostei muito mais ainda deste carnaval, que sacudiu as pilastras da varanda, levantou a poeira dos móveis e riscou o chão encerado da casa grande Brasil.
Casa grande de dono novo, dono que não gosta de festa, prefere ordem unida; que não gosta de alegria, prefere posição de sentido; que não gosta de barulho, prefere o silêncio dos porões e dos cemitérios. Casa grande que não quer festa, não quer transgressão, não quer crítica... quer confissão de pecados, quer penitência, quer castigo, quer joelho no milho e palmatória nas mãos dos que se atrevem....
Mas a senzala, o povo, a cultura popular, não querem nem saber disso... O Brasil voltou, mesmo que por alguns dias a ser Brasil, de todas cores, de todos os gêneros, de todos os sonhos, de toda alegria, de toda transgressão, de toda irreverência, de toda música, de todo grito de guerra... Neste carnaval, o Brasil se reencontrou consigo mesmo e se libertou do silêncio e da disciplina dos donos e feitores da casa grande e, aos dois meses da posso do novo feitor e seus capitães de mato, virou um gigantesco quilombo, onde todos e cada um eram Zumbis e Dandaras, às sombra dos Palmares tupiniquins, todas e todos eram de novo cariris, tapuias, congos, angolas e malês.
E a revolta explodiu na cultura, já que e a economia, a política e a religião não são mais espaços do povo, mas dos coronéis, dos novos senhores de engenho, dos doutorzinhos de Chicago, dos apóstolos redivivos.... Ao povo sobrou a cultura, a mesma cultura que sabe que onde come um comem dois, a cultura solidária na dor e na crítica, a cultura que irmana e resiste, a cultura que expressa a alma profunda do Brasil, feita de carne negra e sangue vermelho, em vão amordaçados e castigados para que se calassem.
Mas o Brasil gritou, gritou em alto e bom som, do alto dos trios elétricos, na xepa dos megablocos, nas ruas e avenidas, nos corsos do interior, nos bailes das sociedades, na rua, na chuva, na fazenda, e nas casinhas de sapê, como dizia a antiga canção... Gritou e gritou bonito!!!!
Centenas de milhares de pessoas juntas, irmanadas por serem multidão, soltaram a voz, a criatividade, o talento poético e musical popular e deram, alegres, o recado de seu inconformismo e sua resistência a estes que querem matar o carnaval, e com ele a alegria, que ainda é das poucas coisas que nos restam.
E como foi bonito!!! E como pegou os caretas e hipócritas coveiros da alegria e da vida no contrapé!!! E eles achavam que tinham ganhado alguma coisa ao vencer a eleição!!! Ganharam o governo, mas, como foi visto, e ouvido aos gritos, não ganharam o coração do povo!!!
O povo, esse tirou o bolsoneco de Olinda do carnaval debaixo de uma chuva de cerveja... O que faz um coveiro da alegria no carnaval?
O povo entendeu tudo e expressou tudo: "Doutor, eu não me engano o bolsonaro é miliciano"!!! O povo vestiu mais fantasia de laranja neste do que em todos os carnavais juntos!!! O povo, na síntese perfeita da transgressão, gritou "Ai, ai, ai ai, bolsonaro é o carai...". O povo, com muito mais didática relacional que o MEC inteiro e suas ordens unidas infantis, num exemplo de resiliência reversa, deixou as coisas claras e explícitas: "Ei, bolsonoro, vá tomar no cu..." Vox populi, vox dei....
E de Belém a Itanhaém, de Salvador a Fortaleza, do Rio de Janeiro a Belo Horizonte, de São Paulo a Porto Alegre, de novo ressoou o grito de guerra que apavora os coveiros da alegria: "Ele não!!!".
E a Sapucaí gritou, e o Anhembi gritou e as escolas de samba cantaram hinos nacionais de resistência em seus sambas, ecoando a voz do povo, deixando o pobre colombiano como uma colombina tonta com o peso, a intensidade, a profundidade e a verdade do saber popular!!!
E a Mangueira foi a campeã do carnaval cantando, vivendo e mostrando a História que as histórias da casa grande não contam. Abriu os porões e as senzalas, e denunciou o machismo, o racismo, a misoginia, e insipidez da casa grande... Ocupou o terreiro num batuque de roda e de palma da mão, e disse: "Eu sei o que vocês fizeram nesses últimos 400 anos!!!". E deixou o rei nu, os coronéis pelados, mudos pelo peso imenso daquele terrível cantar que soube extrair alegria da dor de sempre....
E a Tuiuti nos levou ao paraíso, e deu o maior bode... e de novo mostrou que o povo lembra dos seus até quando não pode dar nome a eles... E viva bode soberano de Garanhuns, aquele que soube fazer do Brasil uma pátria para todos e que deve ter rido muito no cercadinho onde o confinaram!!!
E ao senhor, triste senhor da casa grande, restou tentar tornar a alegria imoral, como se fosse possível alguma moral sem alegria; tentar demonizar o carnaval, como se possível calar todo um país; tentar tornar, feia, suja, depravada como ele, toda a felicidade de um povo que, mesmo "quae sera tamem" está se reencontrando consigo mesmo e que, neste carnaval, lembrou do velho Ataulfo e levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima. E que volta!!!!
É por isso que eu gosto tanto da cultura popular, porque ela nos lembra que ainda estamos vivos, que resistimos, que não desistimos, que lutamos e cantamos, porque nossa casa é casa de bamba.
E agora, se eles achavam que tinham nos emparedado, nos agrilhoado ao tronco e nos posto debaixo de chibata, eu tenho algo a lhes dizer: eles erraram, e erraram feio.
Porque nós somos cipó de aroeira, madeira dura, pau e pedra, mas também somos sangue e olhos vermelhos, e vermelho nos bate o coração.
Nós somos todos como o povo de Umbanda que tomba mas não cai!!!
E se acharam que tínhamos, ido, sumido, nos escafedido, nos calado, silenciado, ou acovardado, negativo!!! Nós somos Adoniram: "Se oceis pensava que nós fumos imbora, nóis enganemo oceis!!! Fingimo que fumo e vortemo! Ói nóis aqui traveis!!!"
Viva o Carnaval!!! Viva o Brasil!!! Viva o povo brasileiro!!!!
Marieli vive!
Lula livre!


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

As vestais e suas pedras

As vestais e suas pedras


O navio, à deriva e com o casco perfurado pela direita, está afundando, e parte da chamada esquerda, como sempre, está culpando outros grupos da própria esquerda pelo naufrágio iminente...
Este é um dos maiores problemas do campo progressista: a tentação hegemonista de alguns dos grupos e grupelhos, ditos de esquerda, que os impede de perceber táticas, estratégias, campos de ação política e locais de atuação política, social e parlamentar, e que os deixa muito confortáveis, nos bares da vida, sentados diante um chopp, com uma pilha de pedras à mão, para procurar uma vidraça, uma telha de vidro para apedrejar.
A acusação da vez, feita pelo jornal do PCO de hoe3, 13/02/2019 (https://www.causaoperaria.org.br/rodrigo-maia-revela-ala-direita-do-pt-fez-acordo-para-votar-em-deputado-bolsonarista-para-presidencia-da-camara/), é que a “ala direita” do PT fez, ou teria feito, um acordo, segundo revelações do deputado Rodrigo Maia, para eleger um deputado bolsonarista para a presidência da Câmara dos Deputados, o próprio Rodrigo Maia, do DEM.
A eleição das mesas diretoras da câmara federal e do senado é um espaço institucional de disputa partidária, mas não puramente ideológica e sim muito mais administrativa e política. Cada cargo da mesa e cada presidência e relatoria de comissão significam não apenas um conjunto de pessoal de assessoria e de recursos, que podem ser usados não apenas na ação partidária dentro do congresso, mas também na ação política na sociedade na sociedade.
Mas também, e principalmente no caso dos partidos de oposição e minoritários no parlamento, a presença nas mesas diretoras é espaço privilegiado para o conhecimento prévio e de possibilidade de voz ativa na câmara e no senado, permitindo não apenas se inteirar, mas denunciar com conhecimento de causa tentativas de projetos de lei espúrios, ou manobras para aprovação destes projetos de lei, medidas provisórias e decretos, gestados e com estratégia de tramitação e aprovação definida nas reuniões das mesas diretoras e das comissões parlamentares. Sem a presença nestas instâncias, seria impossível a qualquer partido o tensionamento político e sequer a denúncia das manobras nas quais o parlamento é useiro e vezeiro....
Para isso, a disputa administrativa não tem o campo ideológico como campo determinante exclusivo na composição de blocos parlamentares para a disputa dos cargos das mesas diretoras e, consequentemente, na participação nas presidências e relatorias das comissões parlamentares. O que é determinante para isso é o tamanho das bancadas de cada partido, e a sua capacidade de articulação em blocos partidários, blocos específicos para essas eleições internas. A questão ideológica nem sempre se reflete de forma cristalina na composição dos blocos, como pôde ser visto claramente na cisão do campo progressista na última eleição da câmara federal, onde PT, PSOL e PSB se articularam num bloco de centro esquerda, e partidos de esquerda, como o PCdoB, e de centro-esquerda, como o PDT, se aliaram a partidos de centro-direita e de direita num outro bloco dito de oposição ao bloco majoritário formado pela direita e que indicou e elegeu Rodrigo Maia para a presidência da câmara...
Na “revelação”, feita por Rodrigo Maia, de um acordo com a “ala direita” do PT para a sua eleição para presidência da mesa, enfaticamente ecoada pelo jornal do PCO, ocorre a confusão primária entre bloco parlamentar específico para a eleição das mesas diretoras do parlamento e bloco parlamentar de atuação política, tanto no parlamento quanto na sociedade. Isto fica claro na formação de um bloco de oposição na câmara federal com o PDT, PSOL e PCdoB, com a exclusão deliberada do PT, não para a eleição da mesa diretora, onde eles se dividiram, mas para a atuação parlamentar.
E aí parte da esquerda parte para um apedrejamento impiedoso ao PT, e exclusivamente ao PT, alvo desde sempre, pelo seu tamanho, inserção social e número de votos e de parlamentares, dos desejos mais inconfessáveis de um bom número de grupos da esquerda. Mas nenhuma palavra a respeito do PCdoB ou mesmo do PDT, que apoiaram ostensivamente Rodrigo Maia. Como o é para a direita, para essa esquerda o fantasma embaixo da cama a assombrá-los é sempre e apenas o PT.
Ao ver esses episódios de apedrejamento da esquerda pela esquerda, sempre me vem à mente, numa analogia imperfeita, ma non troppo, o episódio de Jesus com a mulher adúltera, e a fala do Mestre sobre apenas quem não tiver pecado poder atirar a primeira pedra. Naquele episódio, até os “puros” fariseus abaixaram as cabeças e se retiraram.
Mas os que veem o fantasma do adultério ideológico, chamado no jargão político de esquerda de política de conciliação, capitulação, traição e afins, precisam ser lembrados de que só quem não tem pecado pode atirar a primeira pedra.... E o pecado maior na política é o deslocamento entre a ideologia e o mundo real, que gera a incapacidade de comunicação com as massas, as pessoas que não pertencem ao grupo dos puros, e consequentemente a ausência de uma representação efetiva em número de votos, de mandatos parlamentares e até de participação nas estruturas partidárias...
Para esses fariseus políticos de hoje, travestidos de revolucionários, isso é irrelevante, pois se não sabem, ou não querem saber, como funciona o processo político, pretendem deter o monopólio de saber como ele deveria funcionar, e isso é o que importa... mesmo que praticamente ninguém os ouça e siga.
O problema é que na vida concreta da sociedade real isso apenas mascara a falta de representatividade política e o desprezo pelo funcionamento da política democrática, tão repudiada por estes que não compreendem que é preciso superar a democracia burguesa na ação dentro dela, e não apenas negá-la em tese e condenar à capitulação e traição os que preferem agir politicamente para transformá-la e fazer andar o processo revolucionário.
Esse vanguardismo todo é como um espelho perverso do mais fascista reacionarismo, que também nega a democracia burguesa, no fetiche da volta do autoritarismo ditatorial. É a ignorância do princípio elementar do materialismo histórico do desenvolvimento desigual e combinado....
É necessário, principalmente nos dias de hoje, antes de dar ouvidos a revelações, denúncias e outros tipos de informação, ainda mais vindos da direita, ver além da condenação fácil e da cobrança de uma pureza de fundo moralista e legalista, travestida de revolucionária. É fundamental examinar o contexto, o espaço, e a natureza da ação política denunciada, e a prática, que, afinal, é o critério superior da verdade, de quem está sendo objeto desse denuncismo divisionista.
O divisionismo é uma das estratégias favoritas da direita para enfraquecer o campo progressista, e só funciona tão bem no Brasil porque uma parte da dita esquerda a encampa alegre entusiasticamente e faz, com todo empenho, o serviço divisionista sujo para a direita.... Esta esquerda se esquece, ou não quer lembrar, que não se faz política entre iguais... e que, sim, a política é feita no embate ideológico classista, mas também é feita, dentro de uma democracia burguesa conservadora onde estamos inseridos, dentro dos partidos políticos e nas suas relações e ação nas instâncias representativas internas e no parlamento, além da luta social em si....
Ficar procurando capitulação, rendição, conciliação e submissão à direita ou ao bolsonarismo nos processos internos de eleição das instâncias parlamentares é perverso, porque julga o processo político fora de sua territorialidade ampla; é reducionista, pois reduz a luta política ao parlamento, quando não considera o todo da ação política de quem denuncia; e é imobilista, pois, em nome da pureza ideológica, impede que os partidos tenham espaços institucionais para ecoar as lutas sociais no parlamento.
Nestes dias bicudos, é preciso clareza sobre o que está envolvido nas lutas parlamentares e postura crítica frente firme, frente às declarações divisionistas da direita e à sua propagação pelas vestais da esquerda...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A Dança dos Vampiros

Hoje é o dia mais triste desse ano de tão tristes dias! A face maligna, persecutória, vingativa, intimidativa, violenta e desumana do Brasil em que vivemos atingiu, e eu esperava que isso não fosse ainda possível, um nível mais perverso ainda!
O enredo diabólico, nefasto, sádico e obsceno dos agentes do Estado brasileiro, mormente do poder judiciário e do executivo, para impedir Lula de exercer seu direito expressamente legal, declaratório e não interpretativo, de comparecer ao velório e ao sepultamento de seu irmão mais velho, chegou a um patamar de crueldade inimaginável! Da juíza inominável de Curitiba, aos inomináveis procuradores do Ministério público, passando pelos inomináveis agentes da polícia federal e pelo inominável vice-presidente da república e culminando com o ato sádico do inominável ministro do STF de liberar Lula para o velório de um irmão recém sepultado, todos, homens ditos probos e de bem, esteios da justiça, da correção e da lisura jurídica, policial e política, todos agiram como canalhas, canastrões encenando uma ópera bufa de escárnio e vilipêndio à cidadania e dignidade humana, não apenas de Lula, mas de todo o povo brasileiro!
Um chocante espetáculo feito para demonstrar poder, para acintosamente distorcer a legislação e a ação jurídica, política e policial, para, de forma estereotipada, impingir a todo o país uma canhestra demonstração, pueril e tosca demonstração, de zelo e rigor na aplicação da lei, subvertendo-a para atingir seus interesses mesquinhos de tentar humilhar, deprimir, ferir, aniquilar um homem, um homem idoso de mais de 70 anos, na hora terrível da morte de seu irmão mais velho, que ajudou a criá-lo, e prepará-lo para a vida. Um preso em masmorras, incomunicável, com visitas severamente restritas, impedido de exercer seu direito constitucional de livre expressão, agora tem cerceado também seu direito legal de chorar seu irmão querido.
E para isso é feita uma tragicomédia pornográfica, com transferência de responsabilidades, com alegações simplórias de impossibilidade logística, e que culmina num pavoroso anticlímax de bondade intempestiva e inócua, pois a liberação parcial do STF veio depois do enterro ocorrido.
Mas é necessário que o momento seja utilizado para analisarmos o porquê desta novela de mau gosto! Ela visa, e isso é óbvio, quebrar Lula ainda mais, pois os crápulas deste governo sabem que não terão sono tranquilo enquanto ele viver. Mas não é só isso! Esta chanchada obscena visa mostrar ao povo brasileiro, através de um ato ilegal de força e violência, quem tem o poder e a disposição para utiliza-lo, passando por cima do que acharem necessário passar, seja lei, sejam pessoas.
É um ato de violência simbólica mais ferino e mais doloroso do que poderia ser qualquer ato de violência. É um ato de tortura moral e intimidação social mais agressivo do que poderia ser qualquer ato de tortura física. É o ato que sepulta, com o hipócrita bom-mocismo do vice presidente da república e tudo, a jovem, adolescente ainda, democracia brasileira, aparelhada de forma fascista pelo atual governo, seus asseclas do judiciário e seus cães de guarda da Polícia Federal.
Sim, Fascista!! Porque o fascismo é o governo do espetáculo, das chanchadas, das tragicomédias populistas travestidas de patriotismo. H. L. Mencken nunca esteve tão certo: "O patriotismo é o último refúgio dos canalhas". E essa canalha patrioteira, moralista de ocasião, observadora seletiva da lei, legalistas de fachada, cristãos que desejam dor, morte e destruição da lei e das pessoas para que possam imperar livre de amarras e controles para seu enriquecimento escuso e ilícito, para dar vazão à sua sanha de destruição da diferença, para impor o obscurantismo como virtude e a inteligência e a cidadania e a consciência e a divergência como crime, pecado, depravação!!
Hoje deu!!! Deu para qualquer boa-fé, qualquer boa-vontade! Deu para qualquer longanimidade possível, para qualquer paciência, qualquer disposição para o diálogo com esses crápulas e a corja que os apoia!!!!
Esses seres não são o Brasil! Essas criaturas nefastas são do mal! Pertencem às trevas, ao submundo das milícias e das negociatas, e querem arrastar o Brasil para o lodo onde estão imersos! Lodo mais tóxico e mais profundo e mais avassalador do que o crime de Brumadinho, aliás cinicamente usado como desculpa para impedir a ida de Lula ao velório do irmão! Lodo da imoralidade travestida e montada de moralismo, lodo da violência e do arbítrio travestidos e montados de rigor na aplicação da Lei, lodo da promiscuidade com facínoras, milicianos, corruptos, do topo ao rés do chão, todos travestidos de homens de bem! E a arrogância, típica da casa-grande em relação à senzala e aos homens livres pobres, mostra com toda desfaçatez possível, sua horrenda cara, como uma Medusa moderna, cabelos de víboras, cujo silvo avisa que quem se atrever a levantar a cabeça e olhá-la terá morte certa, a morte certa da desumanização, da transformação da carne, das veias, dos nervos, do cérebro e do coração em pedra!
A visão imperial destes esbirros que hoje governam o país e da tacanha e provinciana elite que os apoia hoje foi desvelada em toda sua feiura. São gente feia, triste, arrogante, enfezada (com ou sem bolsa de colostomia), inculta, mesquinha, apequenada pelo peso do dinheiro que têm e pelo qual fazem qualquer coisa! Gente desprezível, que não lê, não canta, tem medo da arte, da alegria e do bom humor! Gente pernóstica, que acha que tudo tem preço e que, como tem dinheiro, pode comprar tudo! Mas hoje, e esta é talvez a única coisa de bom que saiu deste episódio lúgubre, a recusa de Lula a se submeter ao circo em cujo picadeiro num quartel de São Paulo o STF queria que ele desempenhasse, e com ele todo o povo brasileiro, o papel de palhaço, mostrou que o rei está nu! E não apenas o rei, mas sua pequena nobreza provinciana, seus grandes mercadores da vida e da natureza, seus toscos guardiões dos alfarrábios legais, seus capangas e esbirros travestidos de lanceiros de elite! Todos estão nus! E ao contrário do que disse Caetano Veloso, o rei e sua corte não são mais bonitos nus! São feios, grotescos, disformes, caricaturas de si mesmos, que não suportariam ver-se no espelho! Eles estão nus, despidos das máscaras do patriotismo, do cristianismo, do legalismo e do moralismo! São apenas o que são: seres abjetos, chafurdando em suas próprias fezes! Eles podem ter a força do governo do Estado, mas jamais terão o poder! Eles podem ter a milícia a polícia o exército, a marinha e a aeronáutica, mas jamais terão o coração do povo! Eles podem ter as corporações, o dinheiro e a cobiça, mas jamais terão a beleza, a civilidade, o amor, a empatia e a compaixão em suas pobres e tristes vidas! Eles podem ter a igreja e seus pastores, mas jamais terão a fé das mulheres e dos homens simples do povo! Pobres, cegos, miseráveis e nus!
Hoje o Brasil profundo, oculto na impessoalidade do governo e seus agentes, rapidamente, não deu nem um mês ainda, saiu do do atoleiro, mostrou a cara e pudemos ver, como disse Cazuza, ver claramente quem paga pra gente ficar assim, os vampiros, sanguessugas da Nação! Mas nós estamos vivos!!! E eles já morreram e nem sabem disso, os nosferatus da pátria amada!!! Nós estamos vivos!!!