Sobre Angústias
e Perspectivas
Eu creio,
sinceramente, que estamos caindo em uma armadilha montada sobre uma falsa
questão, qual seja, esquerda identitária ou não identitária? Esta questão é
falsa, pois coloca a possibilidade de qualquer esquerda, qualquer uma que seja, não ser
identitária, e confunde claramente (a armadilha é MUITO eficiente)
identitarismo com identidade, numa enunciação antitética e conflitiva entre as
posturas de diversas correntes da esquerda.
É impossível ser
esquerda sem ser identitário, até porque, colocando de forma quase esquemática,
o fundamento daquilo que chamamos esquerda é a identidade proletária
(proprietária apenas de sua força de trabalho) naquilo que Marx chamava de luta
de classes com a burguesia (detentora dos bens e meios de produção). Há aqui
uma clara enunciação de embate social entre identidades distintas, que foi
resumida pelo marxismo como conflito entre trabalho e capital (Creio que a
morte prematura de Marx antes de concluir O
Capital gerou uma interpretação estrutural de viés economicista ao
marxismo, da qual foi impossível nos livrarmos até hoje). A grande questão é
que a esquerda acabou refém da canonização determinista da identidade, hoje
definida por uma construção parcial, determinista e sumária do conceito de
classe social.
O problema é que
o desenvolvimento capitalista prosseguiu e superou os limites postos, pela
própria dimensão cronológica desses limites, pela ortodoxia marxista e suas
determinações postas à ação social e política da esquerda até hoje. A superação
do limite estrito da mais-valia como fonte da dominação, acumulação e domínio
da burguesia sobre o proletariado acabou entrando em crise pelo seu próprio
êxito, e a acumulação capitalista entra na transição da mais valia sobre o
trabalho para a financeirização como forma privilegiada de acumulação
capitalista, na prática concreta da burguesia, processo iniciado após Breton
Woods e que vem se aprofundando de forma radical até hoje.
A questão é que
este processo se apoia numa investida burguesa para além do mundo de trabalho,
coisa normal, mas sempre subsidiária até então, para os campos plurais e tantas
vezes difusos até para a resistência de esquerda, da superestrutura. É um
processo intenso, veloz e marcado pela agressividade, que passa pelo chamado
pós-moderno (que pode ser lido como pós mundo do trabalho formal de extração da
mais-valia do processo produtivo), pela modernidade líquida de Baumann e chega
a partir de meados da segunda década do século XXI, à proposta de
financeirização absoluta fundada superestruturalmente na dissolução ultra veloz
do proletariado como campo de identidade social definida por sua ação de
resistência à dominação burguesa.
A
financeirização da sociedade é o campo fértil para diluição, quiçá destruição,
da identidade proletária como campo focal de resistência à exploração social do
ultra capitalismo financeirizado, que de forma reducionista chamamos de
neoliberalismo.... A velocidade desse processo, inédita na História, pulverizou
as identidades sociais, fenômeno bem exposto por Marilena Chauí como a
transformação do trabalhador proletário, de quem se extraía mais-valia de seu
trabalho para gerar a acumulação burguesa, no "empreendedor de si mesmo",
que se vê, hoje como fora e acima da classe trabalhadora, como um burguês em
possibilidade, num processo que tem sua expressão maior no que é chamado de
uberização, onde o trabalho posto do campo formal do trabalho assalariado, gera
ilusão do trabalhador uberizado ser um "empreendedor", um empresário
de si mesmo, o que desloca sua consciência de classe no aspecto econômico do
campo proletário para o campo burguês.
Isso pode ser
aferido pragmaticamente pelo esfacelamento, para ficar por aqui, do sindicalismo
como forma de organização proletária no Brasil, que ocorre concomitante com a
fragmentação e dissolução de um sistema legal de trabalho na chamada reforma
trabalhista, que esgarçou os vínculos históricos da própria extração de mais
valia e, na prática, dissolveu as dinâmicas estruturais de consciência de
classe.
Mas é impossível
a existência de sociedade onde os indivíduos vivam nus, despidos de qualquer
consciência de si mesmos e sem identidades sociais. E aí, aproveitando o hiato
teórico do marxismo tradicional sobre as dimensões e o papel da superestrutura
na constituição da identidade de classe, ocorre um redirecionamento das
identidades para espaços da superestrutura que tradicionalmente eram abordados
de maneira secundária nas análises e na prática do pensamento de esquerda e na
sua própria ação política e social.
Assim, aspectos
extremamente relevantes da luta de classes, embora historicamente tratados como
consequência da exploração burguesa e reforços para a extração da mais valia,
como a organização das ditas minorias sociológicas (muitas vezes maiorias
populacionais) em frentes de ressignificação das identidades centrais para o
embate na luta de classes. O eixo de se desloca da identidade geral e
abrangente de classe social, e se fragmenta em espaços plurais de identidades
mais restritas, que, por sua vez, deslocam o campo de batalha da luta de
classes para o da afirmação social das ditas minorias sociológicas tantas vezes
descolados da complexidade da resistência à dominação burguesa, que passa
construir estruturas de dominação onde é muito mais fácil controlar e até
atender expressões restritas de identidade do que enfrentar uma frente unida
classista na luta de classes tradicional.
E a luta de
classes se deslocou de um campo determinado, a superação da extração de mais
valia, para o espaço da inclusão social, urgente e necessária, das ditas
minorias nos espaços sociais, na perspectiva de legar para um futuro
indeterminado, quando estas minorias estivessem superassem sua opressão
estrutural e superestrutural posta pelo novo capitalismo.
A questão é que
esta fragmentação das lutas legítimas e necessárias das minorias, não
conseguiu, até agora, construir um viés teórico, e muito menos político, de
unidade nesses embates. E, e isso é música para os ouvidos da burguesia
financeira, o foco centrado nas demandas identitárias específicas está
fragmentado em grupos fechados, tantas vezes antagônicos entre si, que demandam
suas lutas serem centrais e prioritárias e não tem conseguido uma articulação
de frente de luta unificada contra a burguesia financeira.
Coisa simples e
expressa no antigo dito "dividir para governar". E esta divisão do
antigo proletariado definido por ser objeto da extração de mais-valia no campo
do trabalho formal e condicionado socialmente ao campo das metáforas sociais sobre
este mundo do trabalho, em inúmeros grupos que se definem a partir de si mesmos e não a
partir de uma concepção geral da opressão burguesa, é acompanhada por uma
polarização, dentro da esquerda, de grupos fechados que se definem por
identidades descoladas do trabalho e do mundo do trabalho e postas no campo
superestrutural da dominação burguesa, como etnia, sexo, gênero, identidade
sexual, características corporais, dentre inúmeros outros. Como consequência
disso, ocorre em nível global, um processo de enfraquecimento da antiga
esquerda, focada ainda na luta de classes como eixo de identidade e prática, e
ascensão cada vez mais veloz da direita, cujo fundamento individualista é um
campo muito atrativo para a definição e práticas das táticas e estratégias de
dominação do capitalismo financista, acaba por influenciar a fragmentação dos
espaços de resistência à dominação, que é, por si própria, global. Daí a gente
tem foco na luta de segmentos oprimidos contra uma frente poderosa de dominação
que tenta destruir a consciência de classe e substituí-la por uma consciência
individualista que prioriza o indivíduo e seu campo específico de luta de forma
triste, tantas vezes excludentes entre si (Já antecipo a crítica lembrando o
episódio recente no governo politicamente de centro do Brasil, onde dois
titulares de ministérios voltados à identidade de gênero e igualdade racial,
protagonizaram um triste episódio claramente definido não por pautas de
natureza classista, mas estritamente identitária, causando um dano à esquerda
como um todo e criando um palco para a direita que vai ser cenário de
desqualificação, não das minorias sociais, mas da esquerda como um todo).
Enfim, eu
escrevi essa coisa toda, me perdoem pela complexidade os poucos que chegarem
até aqui, no sentido de propor a necessidade de construção de eixos da luta
contra os burgueses financeirizados. Eixos que estejam fundados em princípios
que não joguem a luta de classes como motor da história no lixo, nem a diluam
em micro lutas tantas vezes até contraditórias entre si, mas que, embasados no
campo conceitual e de prática social que define em si o campo da luta de
classes, construamos a luta de classes como espaço, solidário e resiliente para
o apoio inclusivo de todas, todos e todes numa frente que parta da consciência
e necessidade de uma ação coletiva, mesmo que multifacetada , de resistência ao
ataque mais sofisticado e eficiente já feito pela burguesia pelo monopólio da
superestrutura e pela diluição, quiçá extinção, do processo de resistência na
luta de classes, de todos os setores da sociedade que são objeto de alienação
si próprios como forma de plenificar a extração de uma valia total de toda a
sociedade em prol de uma minoria absoluta de especuladores financeiros......
Mas, insisto, e
finalmente concluo, hoje, com a fragmentação das frentes de resistências, nós é
que estamos fazendo o jogo do capital e nos diluindo em nós mesmos. E isso tem
que ser debatido, discutido entre companheiros, tendo um campo que nos
identifique a todos como classe, e que pense as lutas identitárias, prementes e
necessárias, com a clareza de que a opressão real é de classe, e de que os
lugares de fala devem ser definidos de forma classista, e que a luta de cada um
é um microcosmo da luta de todos.
Que "Ninguém
larga a mão de ninguém" seja superior a "Você não tem lugar de
fala", pois estamos todos ligados pelo definidor comum de sermos todos
explorados, oprimidos e alienados pela burguesia, e que cada luta é um, dos
tantos que existem, campos da grande batalha da luta de classes. Nenhum grupo
social específico vai conseguir se libertar de um processo de alienação que é
global, e nenhuma postura de resistência que ignore as lutas identitárias terá
a menor possibilidade de êxito, pois ninguém estará livre da opressão até que
todos, todas e todes estejam livres da opressão.
Escrevi este
texto como fruto de minha angústia ao observar empiricamente as dificuldades
cada vez maior de um discurso político unificado e pelas dificuldades que a
diluição do conceito de classe e sua substituição, na prática, por conceitos identitários
de grupos menores dificultam nosso diálogo com aqueles que não são nós mesmos,
cada um em seu grupo, cada um com seu lugar de fala e, paradoxalmente, todos
igualmente oprimidos e principalmente, alienados de nós mesmos, pela ação mais
eficaz da burguesia na história do capitalismo. (Se vc achou longo, me
perdoe, mas não sei desenvolver uma tese sem enunciar, contextualizar, analisar
e propor...)
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