sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Sobre Angústias e Perspectivas

Sobre Angústias e Perspectivas


 Marco Aurélio Monteiro Pereira

Eu creio, sinceramente, que estamos caindo em uma armadilha montada sobre uma falsa questão, qual seja, esquerda identitária ou não identitária? Esta questão é falsa, pois coloca a possibilidade de qualquer esquerda, qualquer uma que seja, não ser identitária, e confunde claramente (a armadilha é MUITO eficiente) identitarismo com identidade, numa enunciação antitética e conflitiva entre as posturas de diversas correntes da esquerda.

É impossível ser esquerda sem ser identitário, até porque, colocando de forma quase esquemática, o fundamento daquilo que chamamos esquerda é a identidade proletária (proprietária apenas de sua força de trabalho) naquilo que Marx chamava de luta de classes com a burguesia (detentora dos bens e meios de produção). Há aqui uma clara enunciação de embate social entre identidades distintas, que foi resumida pelo marxismo como conflito entre trabalho e capital (Creio que a morte prematura de Marx antes de concluir O Capital gerou uma interpretação estrutural de viés economicista ao marxismo, da qual foi impossível nos livrarmos até hoje). A grande questão é que a esquerda acabou refém da canonização determinista da identidade, hoje definida por uma construção parcial, determinista e sumária do conceito de classe social.

O problema é que o desenvolvimento capitalista prosseguiu e superou os limites postos, pela própria dimensão cronológica desses limites, pela ortodoxia marxista e suas determinações postas à ação social e política da esquerda até hoje. A superação do limite estrito da mais-valia como fonte da dominação, acumulação e domínio da burguesia sobre o proletariado acabou entrando em crise pelo seu próprio êxito, e a acumulação capitalista entra na transição da mais valia sobre o trabalho para a financeirização como forma privilegiada de acumulação capitalista, na prática concreta da burguesia, processo iniciado após Breton Woods e que vem se aprofundando de forma radical até hoje.

A questão é que este processo se apoia numa investida burguesa para além do mundo de trabalho, coisa normal, mas sempre subsidiária até então, para os campos plurais e tantas vezes difusos até para a resistência de esquerda, da superestrutura. É um processo intenso, veloz e marcado pela agressividade, que passa pelo chamado pós-moderno (que pode ser lido como pós mundo do trabalho formal de extração da mais-valia do processo produtivo), pela modernidade líquida de Baumann e chega a partir de meados da segunda década do século XXI, à proposta de financeirização absoluta fundada superestruturalmente na dissolução ultra veloz do proletariado como campo de identidade social definida por sua ação de resistência à dominação burguesa.

A financeirização da sociedade é o campo fértil para diluição, quiçá destruição, da identidade proletária como campo focal de resistência à exploração social do ultra capitalismo financeirizado, que de forma reducionista chamamos de neoliberalismo.... A velocidade desse processo, inédita na História, pulverizou as identidades sociais, fenômeno bem exposto por Marilena Chauí como a transformação do trabalhador proletário, de quem se extraía mais-valia de seu trabalho para gerar a acumulação burguesa, no "empreendedor de si mesmo", que se vê, hoje como fora e acima da classe trabalhadora, como um burguês em possibilidade, num processo que tem sua expressão maior no que é chamado de uberização, onde o trabalho posto do campo formal do trabalho assalariado, gera ilusão do trabalhador uberizado ser um "empreendedor", um empresário de si mesmo, o que desloca sua consciência de classe no aspecto econômico do campo proletário para o campo burguês.

Isso pode ser aferido pragmaticamente pelo esfacelamento, para ficar por aqui, do sindicalismo como forma de organização proletária no Brasil, que ocorre concomitante com a fragmentação e dissolução de um sistema legal de trabalho na chamada reforma trabalhista, que esgarçou os vínculos históricos da própria extração de mais valia e, na prática, dissolveu as dinâmicas estruturais de consciência de classe.

Mas é impossível a existência de sociedade onde os indivíduos vivam nus, despidos de qualquer consciência de si mesmos e sem identidades sociais. E aí, aproveitando o hiato teórico do marxismo tradicional sobre as dimensões e o papel da superestrutura na constituição da identidade de classe, ocorre um redirecionamento das identidades para espaços da superestrutura que tradicionalmente eram abordados de maneira secundária nas análises e na prática do pensamento de esquerda e na sua própria ação política e social.

Assim, aspectos extremamente relevantes da luta de classes, embora historicamente tratados como consequência da exploração burguesa e reforços para a extração da mais valia, como a organização das ditas minorias sociológicas (muitas vezes maiorias populacionais) em frentes de ressignificação das identidades centrais para o embate na luta de classes. O eixo de se desloca da identidade geral e abrangente de classe social, e se fragmenta em espaços plurais de identidades mais restritas, que, por sua vez, deslocam o campo de batalha da luta de classes para o da afirmação social das ditas minorias sociológicas tantas vezes descolados da complexidade da resistência à dominação burguesa, que passa construir estruturas de dominação onde é muito mais fácil controlar e até atender expressões restritas de identidade do que enfrentar uma frente unida classista na luta de classes tradicional.

E a luta de classes se deslocou de um campo determinado, a superação da extração de mais valia, para o espaço da inclusão social, urgente e necessária, das ditas minorias nos espaços sociais, na perspectiva de legar para um futuro indeterminado, quando estas minorias estivessem superassem sua opressão estrutural e superestrutural posta pelo novo capitalismo.

A questão é que esta fragmentação das lutas legítimas e necessárias das minorias, não conseguiu, até agora, construir um viés teórico, e muito menos político, de unidade nesses embates. E, e isso é música para os ouvidos da burguesia financeira, o foco centrado nas demandas identitárias específicas está fragmentado em grupos fechados, tantas vezes antagônicos entre si, que demandam suas lutas serem centrais e prioritárias e não tem conseguido uma articulação de frente de luta unificada contra a burguesia financeira.

Coisa simples e expressa no antigo dito "dividir para governar". E esta divisão do antigo proletariado definido por ser objeto da extração de mais-valia no campo do trabalho formal e condicionado socialmente ao campo das metáforas sociais sobre este mundo do trabalho, em inúmeros grupos que se definem a partir de si mesmos e não a partir de uma concepção geral da opressão burguesa, é acompanhada por uma polarização, dentro da esquerda, de grupos fechados que se definem por identidades descoladas do trabalho e do mundo do trabalho e postas no campo superestrutural da dominação burguesa, como etnia, sexo, gênero, identidade sexual, características corporais, dentre inúmeros outros. Como consequência disso, ocorre em nível global, um processo de enfraquecimento da antiga esquerda, focada ainda na luta de classes como eixo de identidade e prática, e ascensão cada vez mais veloz da direita, cujo fundamento individualista é um campo muito atrativo para a definição e práticas das táticas e estratégias de dominação do capitalismo financista, acaba por influenciar a fragmentação dos espaços de resistência à dominação, que é, por si própria, global. Daí a gente tem foco na luta de segmentos oprimidos contra uma frente poderosa de dominação que tenta destruir a consciência de classe e substituí-la por uma consciência individualista que prioriza o indivíduo e seu campo específico de luta de forma triste, tantas vezes excludentes entre si (Já antecipo a crítica lembrando o episódio recente no governo politicamente de centro do Brasil, onde dois titulares de ministérios voltados à identidade de gênero e igualdade racial, protagonizaram um triste episódio claramente definido não por pautas de natureza classista, mas estritamente identitária, causando um dano à esquerda como um todo e criando um palco para a direita que vai ser cenário de desqualificação, não das minorias sociais, mas da esquerda como um todo).

Enfim, eu escrevi essa coisa toda, me perdoem pela complexidade os poucos que chegarem até aqui, no sentido de propor a necessidade de construção de eixos da luta contra os burgueses financeirizados. Eixos que estejam fundados em princípios que não joguem a luta de classes como motor da história no lixo, nem a diluam em micro lutas tantas vezes até contraditórias entre si, mas que, embasados no campo conceitual e de prática social que define em si o campo da luta de classes, construamos a luta de classes como espaço, solidário e resiliente para o apoio inclusivo de todas, todos e todes numa frente que parta da consciência e necessidade de uma ação coletiva, mesmo que multifacetada , de resistência ao ataque mais sofisticado e eficiente já feito pela burguesia pelo monopólio da superestrutura e pela diluição, quiçá extinção, do processo de resistência na luta de classes, de todos os setores da sociedade que são objeto de alienação si próprios como forma de plenificar a extração de uma valia total de toda a sociedade em prol de uma minoria absoluta de especuladores financeiros......

Mas, insisto, e finalmente concluo, hoje, com a fragmentação das frentes de resistências, nós é que estamos fazendo o jogo do capital e nos diluindo em nós mesmos. E isso tem que ser debatido, discutido entre companheiros, tendo um campo que nos identifique a todos como classe, e que pense as lutas identitárias, prementes e necessárias, com a clareza de que a opressão real é de classe, e de que os lugares de fala devem ser definidos de forma classista, e que a luta de cada um é um microcosmo da luta de todos.

Que "Ninguém larga a mão de ninguém" seja superior a "Você não tem lugar de fala", pois estamos todos ligados pelo definidor comum de sermos todos explorados, oprimidos e alienados pela burguesia, e que cada luta é um, dos tantos que existem, campos da grande batalha da luta de classes. Nenhum grupo social específico vai conseguir se libertar de um processo de alienação que é global, e nenhuma postura de resistência que ignore as lutas identitárias terá a menor possibilidade de êxito, pois ninguém estará livre da opressão até que todos, todas e todes estejam livres da opressão.

Escrevi este texto como fruto de minha angústia ao observar empiricamente as dificuldades cada vez maior de um discurso político unificado e pelas dificuldades que a diluição do conceito de classe e sua substituição, na prática, por conceitos identitários de grupos menores dificultam nosso diálogo com aqueles que não são nós mesmos, cada um em seu grupo, cada um com seu lugar de fala e, paradoxalmente, todos igualmente oprimidos e principalmente, alienados de nós mesmos, pela ação mais eficaz da burguesia na história do capitalismo. (Se vc achou longo, me perdoe, mas não sei desenvolver uma tese sem enunciar, contextualizar, analisar e propor...)


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