Resolvi voltar a escrever no "Paixão e Fé, Faca Amolada". Eu sempre acho que não tenho muito o que dizer, mas quando vejo a média das postagens em blogs e redes sociais, acho até que dá pra dar um pitaco.
Quero falar um pouco do que mais me impressionou na minha recente viagem ao Peru. Foram só 9 dias, nada que permita você ter um diagnóstico preciso e objetivo de nada, mas algumas são impressionantes.
O que, de longe, mais me marcou foi a consciência identitária do povo em geral, do povo comum. As raízes incas e pré-incaicas são presentes no cotidiano das pessoas e fazem uma mediação muito interessante com a normatividade impositiva da herança europeia espanhola.
Eu fui pra Mistura Lima, um feira gastronômica. Voces não imaginam o tamanho daquilo. Tinha mais de dois quilômetros de comprimento, mais de 400 espaços gastronômicos diferenciados, um mercado de produção da agricultura familiar de todo o Peru, além de conferências e aulas práticas de culinárias de boa parte do mundo. O tema deste ano era Cozinhas Milenares, com ênfase no México, Marrocos Índia e no próprio Peru. Uma coisa de louco.
E dava uma inveja!!! Uma inveja de um país muito menor e menos diversificado que o Brasil, mas que mantém no cardápio do cotidiano mais de 200 tipos de milho e 300 tipos de batatas. Um país onde a culinária europeia acaba sendo submetida às determinações de um paradigma nativo de alimentação e se adapta, se molda, quase se anula diante dele! Ver isso ao vivo e comparar com o papel absolutamente secundário que as matrizes alimentares nativas possuem no Brasil dá uma tristeza!!! Nós nos ufanamos, com o Câmara Cascudo, das três raízes da alimentação brasileira: a índigena, a africana e a européia, assim, dessa forma. No Peru, elas são especificadas, nomeadas, conhecidas e reconhecidas em sua pluralidade interna e na relação de umas com as outras, não nos grandes blocos que nós usamos. E a isso se agregam as influências da imigração oriental, do Japão, da China, da Coréia. E isso gera a culinária "chifa", uma das coisas mais saborosas que já experimentei, abordagem fusion da culinária americana de raiz com a culinária oriental. É uma coisa maravilhosa!!!
Nós aqui ficamos construindo tradições inventando pratos típicos.... Lá eles celebram a diversidade, valorizam as especificidades e as misturas que vêm do diálogo entre elas. Por isso o nome de um dos cinco maiores eventos gastronômicos do mundo é Mistura....
Vocês não tem noção do impacto que é você sentar num banco da Plaza de Armas de Cusco (ou Cuzco, ou Cosqo) e ouvir as pessoas passarem falando quechua, pessoas comuns, mãos falando com seus filhos, amigos falando entre si. Coisa inimaginável no Brasil....
Ir num mercado local e ver a diversidade regional ser exposta com um senso de propriedade, de identidade. Ir aos melhores restaurantes, ou a restaurantes medianos e até a restaurantes turísticos e populares e encontrar ali a onipresença do milho, da batata, dos inúmeros ajies (pimentas).
Machu Picchu é lindo, Lima é mais uma megalópole anárquica do terceiro mundo... Mas a consciência identitária local, fundada em matrizes pré-colombianas, é algo que surpreende, mesmo quem já viajou por outros países de Nuestra America del Sur. Eu estou meio tonto até agora...
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