sábado, 5 de janeiro de 2019
De Jesus na goiabeira a Anauê Jaci: discursos e narrativas
Eu tenho lido com bastante cuidado a maioria dos posts sobre o Bolsonaro e o seu governo. E uma coisa tem me deixado muito preocupado.... Todas, mas todas mesmo, as análises e os diagnósticos e propostas têm partido de um lugar que a própria tomada do poder pelos proto fascistas, em alguns casos nem tão proto assim, tornou anacrônico: o lugar do embate ideológico fundamentado na racionalidade, na lógica e numa topologia de ordem democrática como espaço privilegiado.
Isso é assustador, porque as coisas já não são mais assim. Os lugares do embate mudaram, os temas mudaram, os sujeitos mudaram, não há mais o campo democrático como ordenador da ação política. E todas estas mudança provocaram uma desterritorialização daqueles que jogam o jogo da democracia e do socialismo. Parece que o discurso da esquerda parou em 2010 e não tem consciência da velocidade de mudança conjuntural política e social de lá pra cá.
Daí as intervenções acabam sendo pautadas por uma narrativa que está obsoleta, simplesmente porque não consegue perceber que as expectativas da população, mesmo num processo desmonte dos seus direitos e fragilização extrema de suas condições de trabalho e vida, não estão aí, no lugar da estrutura da sociedade. As demandas e expectativas estão centradas, e é claro que isso foi construído com muita eficiência, no campo moral e no campo ideológico, ambos superestruturais....
E respostas que, em última instância, são constatações lamentosas sobre o desmonte da estrutura social, simplesmente não têm apelo à gigantesca maioria da população, que têm suas expectativas no campo moral e ideológico, ou seja, no combate à `"ideologia de gênero", que vem com Jesus na goiabeira, menino veste azul e menina veste rosa; com a criminalização do PT, e de toda esquerda, com uma política externa alinhada aos EUA e com a demonização do socialismo de Cuba e Venezuela, e que vê comunismo atrás de cada porta e debaixo de cada mesa. E nós rimos disso.... achamos tosco, primário, falso, idiota, demente até (todas as expressões foram tiradas de posts críticos ao moralismo e ao ideologismo). Mas foi isso, e talvez ainda não tenhamos nos conscientizado, que elegeu Bolsonaro e que o legitima com mais 70% de aprovação no início do seu mandato.
Agora, se isso é uma cortina de fumaça para o desmonte neoliberal da economia e para a institucionalização de um Estado autoritário, essa cortina de fumaça está efetivamente cegando a população, e até alguns ditos intelectuais. E aí vem a questão que para mim é central: não é possível esperar receptividade da população para a crítica da pauta política e econômica do governo sem o enfrentamento dessa cortina de fumaça moral e ideológica.
E simplesmente não temos tentado compreender os fundamentos do nexo interno da narrativa de Bolsonaro et caterva e a efetividade de seus discursos junto à população porque estamos lendo de forma errada estes discursos. Eles não são vistos por nós a partir de sua efetividade e hegemonia narrativa, mas a partir de suas incongruências formais, racionais e lógicas. E resistimos a assumir que esse discurso tem eficácia, e que esta eficácia nos paralisou, por termos, até historicamente, deixado as questões superestruturais em segundo plano, até porque sempre tivemos uma visão hierárquica da determinação em última instância das questões estruturais, o que nos levou a construir nossa narrativa a partir delas.
Daí, o máximo que temos é a ironia, o desprezo e a desqualificação aos Jesus na goiabeira e aos comunistas atrás de cada porta esperando para impor a ideologia de gênero e hiper sexualizar nossos filhos. Primeiro porque é mentira, mas em segundo lugar, porque não percebemos que respondemos a questões morais com argumentos políticos e a questões ideológicas com argumentos econômicos. Ou seja, damos respostas estruturais para questões superestruturais. Esta foi a armadilha na qual caímos na eleição e na qual continuamos a cair. Dizer que Jesus na goiabeira é um delírio funciona pra nós, mas para os setores da população imersos no sincretismo místico do pentecostalismo e neopentecostalismo, da renovação carismática e até de um espiritualismo e espiritismo difuso, não há delírio, há uma experiência revestida de de autoridade espiritual de uma mulher, sacerdote consagrada a Deus que teve uma teofania privilegiada: a pastora viu Jesus. E achar que isso ocorre com alguém que vai liderar no Ministério que ela ocupa o desmonte das políticas de apoio e legitimação de direitos das chamadas minorias é mera coincidência, é simplesmente não perceber o peso e a autoridade dessa narrativa junto a setores massivos da população.
O mesmo vale para os discursos do ministro da educação e, principalmente das relações exteriores, onde a ideologia nacionalista autoritária se constrói tanto na demonização do comunismo (sic!) quanto na apologia de um regime de força. Exemplo cristalino disso foi o discurso de posse do ministro das relações exteriores, com seu emblemático final de "Anauê, Jaci", que na tradução dele, baseada em Nóbrega, seria "Salve Nossa Senhora"!
O problema disso é que esses discursos, ilógicos, irracionalistas, alienantes, místicos no pior sentido do termo, têm funcionado. Têm conseguido nos acuar e nos levado a dar as respostas econômicas, de direitos e políticas e sempre. Que até por serem tão de sempre, já são bem conhecidas e, apesar de corretas em sua maioria, estão muito desgastadas junto à população.... Mas elas são o que temos e o que tivemos até agora.... são nossa zona de conforto e segurança, mesmo que sejam refúgio numa visão althusseriana de sociedade....
E aí estamos perdendo a disputa narrativa, porque nos legitimamos com o certo, mas hoje menos importante e tachado de velho, discurso de sempre da esquerda, contra o velho discurso moralista e ideológico, que vem como o novo, mesmo que seja um diversionismo para ação neoliberal de desmonte do Estado e dos direitos da população. A questão que se coloca é a da necessidade de termos uma resposta moral, não moralista, e ideológica a estes discursos.... Mas esta resposta não aparece nos posts da esquerda, só aparece o discurso estrutural....
A cortina de fumaça moralista e ideológica irá se dissipar? Irá, com certeza, mas temo que o seja pelo seu próprio desgaste de incoerência interno, e que o seja quando as ações estruturais de cunho neoliberal já tenham sido implantadas e desestruturado e eliminado as conquistas de décadas dos trabalhadores....
Quando será que vamos entender que é hora de se atacar dentro de seu próprio campo as narrativas morais e ideológicas? Quando vamos assumir o desconforto de repensarmos nossas narrativas, corretas em si, mas hoje sem apelo junto à população? Quando vamos entender que precisamos ter uma concepção de sociedade onde os elementos superestruturais da vida das pessoas sejam levados em consideração, coisas como fé, família, escola, segurança e afins?
Até compreendermos isso, continuaremos acuados pelo discurso dessa direita rude e primária, mas que tem falado com mais eficiência do que nós para o homem comum.... E é o homem comum, não os do nosso grupo, que legitima ou não legitima um governo.
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